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O que é a cláusula “filioque” e por que ela foi removida?

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Na reunião da Câmara dos Bispos, realizada em 03/09/2014, em São Paulo, foi aprovada a proposta de remoção da cláusula filioque dos novos ritos do LOC 2015. Essa foi uma requisição da Comissão Nacional de Liturgia.

Mas o que é a cláusula “filioque”?

O palavreado original do Credo Niceno “que procede do Pai, e com o Pai e o Filho é adorado e glofificado” foi acordado no Concílio Ecumênico de Constantinopla. Na metade latina da igreja, a frase foi alterada a fim de incluir o texto “que procede do Pai e do Filho”, expressa na palavra latina “filioque”. Essa adição foi feita num concílio regional do século VI, em Toledo, Espanha. Nessa região, muitos Cristãos tinham sido originalmente arianos, que negavam a divindade plena do Filho. O sínodo aparentemente acreditava que a repetição litúrgica da cláusula filioque poderia ajudar os fiéis a entender que o Filho era plenamente Deus. A frase se espalhou até que se tornou convencional na Igreja Latina. Sua inclusão nunca foi autorizada por um Concílio Ecumênico, e nunca foi adotada nas igrejas orientais.

No séculos XVI e XVII, teólogos anglicanos foram unânimes ao alegar que as únicas bases da doutrina eram Escritura e os ensinamentos da Tradição da Igreja Indivisa (ou seja, Concílios Ecumênicos). Sem saber que a cláusula filioque havia sido inserida posteriormente, e pensando que sempre fosse parte do credo, os anglicanos a retiveram, e alguns chegaram a descrever, em extensão, o motivo pelo qual os gregos a haviam “apagado”. O uso contínuo da cláusula filioque continua sendo uma razão de irritação entre igreja orientais e ocidentais.

Em 1976, os membros da Comissão de Diálogo Anglicano-Ortodoxa concordaram que o filioque não deveria ser incluído no credo porque havia sido introduzido sem a autoridade de um Concílio Ecumênico.
Em 1978, a Conferência de Lambeth recomendou que as igrejas da Comunhão Anglicana considerassem omitir o filioque do Credo Niceno.
A Convenção Geral de 1985, da Igreja Episcopal, recomendou a restauração do palavreado original do Credo, uma vez que essa ação foi aprovada pela Conferência de Lambeth e pelo Conselho Consultivo Anglicano.
A mudança foi endossada pela Conferência de Lambeth de 1988.
Em 1990, na Reunião do Conselho Consultivo Anglicano e em 1993, na Reunião conjunta dos Primazes e do Conselho Consultivo Anglicano, foi aprovado o seguinte:

Resolution 19: Filioque Clause

Resolved, that this Joint Meeting of the Primates of the Anglican Communion and the Anglican Consultative Council, urges the Provinces and Member Churches of the Anglican Communion to respond to the requests of the 1978 and 1988 Lambeth Conferences, ACC-4, and ACC-8, that, in the words of Lambeth 1988, ‘in future liturgical revisions the Niceno-Constantinopolitan Creed be printed without the Filioque clause’, and to inform the Office of the Anglican Communion of their action.

Resolvido, que esta Reunião Conjunta dos Primazes da Comunhão Anglicana e do Conselho Consultivo Anglicano urge as províncias e Igrejas-membro da Comunhão Anglicana a responder às requisições das Conferências de Lambeth de 1978 e 1988, ACC-4 e ACC8, para que, nas palavras de Lambeth 1988, “revisões litúrgicas futuras do Credo Niceno-Constantinopolitano sejam impressas sem a cláusula Filioque”, e a informar o Escritório da Comunhão Anglicana de sua ação.

A Convenção Geral de 1994, da Igreja Episcopal, aprovou a remoção do filioque na revisão seguinte de seu LOC. A série Enriching our Worship, de ritos experimentais, já exclui o trecho “e do Filho” do Credo Niceno.

Nas Conferências de Lambeth 1998 e 2008, o Credo Niceno foi escrito com a redação original de Niceia-Constantinopla (sem o filioque).

O LOC 2015, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, seguirá a decisão exarada pelo Conselho Consultivo Anglicano e pela Reunião dos Primazes, omitindo a cláusula filioque de sua revisão litúrgica. Para os fiéis, pouco muda, uma vez que nosso catecismo e material teológico já tentava harmonizar uma visão ecumênica, alertando que a procedência do Espírito pelo Filho, na verdade seria um “envio” pelo Filho, através do Pai. De agora em diante, poderemos, mais apropriadamente enfatizar esse raciocínio. O Filho envia, mas o Espírito procede do Pai. Este é o testemunho de João 15:26.